O uso da viola convencional no nosso país é secular e está assinalado desde os primórdios do século XX quando, reza a história, o músico João Baptista Sanches, de origem cabo-verdiana, criou uma escola de violão.
Pouco depois, os irmãos Assis, Fernando e Mário surgem igualmente com a sua escola de música e durante várias décadas outros interessados criam escolas de violão e piano, casos das famílias Mirumba, Murimba e Webba, sem serem suficientes nas suas épocas para os ensinamentos, pesquisa e divulgação dos primórdios da música angolana.
Aurélio de Oliveira Neves "Voto Neves”, nascido em 1880 e falecido aos 81 anos de idade, isto em 1961, surge também como uma das referências entre o início e meados do século passado, como tocador de violão. Era musicólogo, poeta e compositor, e além disso também tocava acordéon e harmónica.
Carlos Aniceto Vieira Dias "Liceu”, que tinha sido instruendo das escolas da família Assis, é a figura a quem, na década de 40, viriam a concentrar-se as atenções generalizadas dos amantes da música ao notabilizar-se como guitarrista sublime, em embrionários grupos musicais, caso dos Sambas. Liceu Vieira Dias, nascido em 1919 e falecido em 1994, cria o lendário Ngola Ritmos em 1947 e é, ao que se ouve dizer, o primeiro a estilizar temas do género musical Semba. Nesse feito contou com a cumplicidade dos inseparáveis companheiros e guitarristas Nino Ndongo e José Maria dos Santos, aos quais se junta anos mais tarde o também guitarrista José Cordeiro.
É facto que com o surgimento do Ngola Ritmos estabeleceram-se as bases para o que de seguida se passou a chamar Música Popular Angolana.
Fora do meio urbano luandense, entretanto, de São Salvador, actual Mbanza Kongo, surge o Grupo São Salvador liderado por Manuel de Oliveira e integrado pelos guitarristas Henrique Freitas e Jorge Eduardo, que emigram para o Congo/Kinshasa, em 1949. Estes inserem-se dentre os autores dos primeiros sucessos da chamada Rumba Congolesa, cantando e tocando com Wendo, Francó e Dr. Nicó, que viriam a tornar-se nas maiores figuras da guitarra no continente africano e bastante referenciadas no nosso país.
A esta gesta pioneira seguiu-se o surgimento de distintas gerações de guitarristas que ao longo das últimas seis décadas brindam a música angolana com bonitas melodias, muitas das quais verdadeiros clássicos com recortes de genialidade.
meio rural para o urbano e Duia, por sua vez, assumiu-se como o primeiro grande guitarra-solo da música angolana e fonte de inspiração para a nata de solistas que emergiram nas décadas de 60 e início dos anos 70, com natural destaque para os casos dos fenomenais Marito e Zé Keno, aos quais se somariam Dominguinho, Nito Saraiva, Mário Fernandes, Baião, Belmiro Carlos "Nito”, Quental, Constantino, Nelinho Airosa, Botto Trindade e Brando. Só para citar estes.
Sebastião Matomona, do Quinteto Angolano, dos Ngoma Jazz e do Cabinda Ritmos, outras referências da música dos anos 60 e início de 70, emerge como solista de referência em Luanda, transportando de forma ainda mais acentuada a rítmica das regiões fronteiriças à Norte, com os Congos.
Abre-se um parêntesis para vincar que toda a música popular e urbana é híbrida. Ganha empréstimos. Acasala com outras sonoridades de origens próximas ou distantes. E a música angolana, embora tendo a sua identidade própria, obviamente, não foi nem é excepção.
Os músicos aqui citados constituem a principal referência da guitarra-solo angolana, alcandorados como solistas de eleição ainda no período anterior a proclamação da Independência Nacional.
São deles a autoria da quase totalidade dos solos e arranjos musicais que embelezam os temas classificados por muitos de nós como os grandes clássicos da música angolana.
A este escol de criadores junta-se a versatilidade de um Carlitos Vieira Dias, filho de "Liceu” e seguidor na linha que define o padrão da guitarra angolana, raro e sublime na execução das violas solo, contra-solo, ritmo e baixo. Carlitos foi maestro nos grupos em que passou.
Outro virtuoso homem da viola, a quem nesta homenagem é obrigatório destacar, é o investigador e professor de guitarra Mário Rui Silva, estudioso de música angolana e refinado executante de guitarra acústica.
Fulgurante foi o retorno ao país, após a proclamação da Independência Nacional, da plêiade de guitarristas radicados no Congo/Kinshasa, capitaneados pelo jovem Teddy Nsingui da orquestra Inter Palanca de Matadidi Show. Tão notável foi a aparição destes que até ao presente Teddy Nsingui dá mostras da sua criatividade pujante e reconhecida competência nos mercados nacional e internacional.
Outros rebentos, entretanto, foram emergindo com natural realce para o arranjista e orquestrador Betinho Feijó, a quem se atribui a responsabilidade na estética que o Semba assumiu desde a viragem do século e entrada no novo milénio.
Além de Betinho Feijó, outras figuras pródigas da guitarra-solo emergiram com notoriedade, casos do talentoso Simons Mancini, Alex Samba, Zé Mueleputo e mais recentemente do jovem Texas, apenas para assinalar os mais destacados.