Sinopse
Trata-se de um livro de cronicas sobre a convivência, a forma de comunicação,
relação quotidiana dos povos Ovimbundu, Nganguela e nyaneka que migraram das áreas
rurais para a periferia do Lubango, Moçamedes e Menongue.
É uma coletânea de estórias baseadas em histórias, na medida em que, a sua narração,
muitas vezes com fundamento em factos reais, se entrelaça tão harmoniosamente com a
ficção, de tal modo que não se consegue distinguir com exactidão a fronteira entre uma e
outra.
Mwene nos coloca diante de situações corriqueiras de forma tão assertiva, de tal
modo que uma mesma situação que tenhamos vivido , ou que tenhamos ouvido que
alguém tenha passado, pode vir revestida de outro significado, quando a lemos a partir
daqui. Algumas delas são simplesmente de morrer de rir! Quero aqui destacar os diálogos
entre tio e sobrinho, que inclusive deram título à primeira obra do Mwene. Outras, mesmo
nos fazendo rir, não deixam de causar alguma raiva ou indignação, como é o caso, por
exemplo, das crónicas 19, 20 e 47. Tem ainda as que podem causar alguma estupefacção
ou estranheza, dependendo do nível de sensibilidade da pessoa. Ou então, aquelas que,
de tão importantes, poderiam ser muito engraçadas se não fossem trágicas, como a da
surra rija que o amigo de infância e a sua irmã apanharam do pai, por uma situação
simplesmente absurda.
O livro OS ATONKOGO DE UM JOVE LEBERDE, é também uma contribuição à edificação
de uma nação angolana promotora do bem-estar social através da indagação do status
quo. Insere-se ainda no histórico de um legado que tem se estabelecido a partir das arte,
e é aqui representado pela escrita estilizada do Mwene Vunongue.
Nestes termos, os seus escritos podem ser enquadrados na longa tradição de
algumas e alguns artistas angolanas/os, que usa(va)m a arte para gerar algum tipo de
questionamento ontológico-social. Entre outras, veja-se as composições de artistas como
Sam Mangwana, Rosita Palma, Bonga Kwenda, Lourdes Van-Dúnem e inclusive Valdemar
Bastos, com a “Velha Xica” que aconselha o menino a não falar política. Incluo nesta lista
o compositor e intérprete Justino Handanga, cujas letras em Umbundu, o Mwene
gentilmente traduziu para mim. As letras deste cantor revelam o seu comprometimento
com as questões sociais.
O autor é brilhante ao (re)criar as suas estórias reflectidas no cuidado demonstrado
com a transcrição da língua falada para a escrita. Percebe-se a manutenção do sentido
original das nossas pronúncias, em função da influência das línguas maternas, e até
mesmo do nosso espírito criativo, enquanto construtoras da língua nacional Umbundu. Só
para citar alguns exemplos: aborgui; fardilha; Walunga yu wanya.; Etu handi katulundila;
Una okuete esinga lialua, Nda Paz, Pax, Papix, nda nye; baika; Banzelaram; salavande;
Haka;Mba; Avoyo, eci uhembi; AKOMBE VEYA... Paralelamente, Mwene nos proporciona
uma viagem por ruas, becos, ruelas, vilas, cidades, províncias, aldeias e municípios, sem
sairmos do lugar.