Dulce Filomena Martins Tavares Braga, nascida a 16 de abril de 1958, na vila de Nharêa, província do Bié, Angola, é uma escritora angolana cuja obra literária se tornou uma referência na memória histórica e emocional da guerra civil angolana. Atualmente reside em Campinas, São Paulo, onde construiu carreira académica, profissional e literária.
Durante a infância e adolescência, Dulce estudou em várias instituições de ensino em Angola, incluindo o Liceu de Silva Porto (Bié), o Liceu Nacional Dr. Silva Cunha, o Colégio Nossa Senhora da Paz e escolas da cidade do Kuito. Em 1975, com apenas 17 anos, viu a sua vida transformada pela eclosão da guerra civil. Forçada a deixar Angola com a família, partiu para o Brasil num voo fretado pelo governo português — um episódio que descreve como “um acidente de percurso”, já que não conseguiram embarcar no voo oficial dos refugiados.
No Brasil, Dulce Braga prosseguiu os estudos e graduou-se em Economia pela Universidade de Campinas (UNICAMP). Além da carreira académica, tornou-se sócia proprietária da Way Up Moda, conciliando o universo empresarial com a escrita, que viria a marcar profundamente a sua trajetória.
A sua estreia literária ocorreu em 2009 com o romance “Sabor de Maboque”, obra autobiográfica que relata os acontecimentos vividos entre 1974 e 1975, quando a guerra civil angolana irrompeu e destruiu a estabilidade da sua família. O livro, estruturado em 33 capítulos e acompanhado de um apêndice fotográfico, mistura memórias doces da infância com a dureza do conflito, criando uma narrativa de forte impacto emocional. O título remete ao maboque, fruto africano de sabor agridoce, metáfora perfeita para a mistura de ternura e dor que permeia a obra.
“Sabor de Maboque” tornou-se um marco na literatura angolana contemporânea, já teve várias edições e foi traduzido para o francês. A obra passou também a ser utilizada como material pedagógico em escolas brasileiras de Campinas e Valinhos, após a implementação de uma lei que incentiva o ensino da história angolana no Brasil.
Em 2013, Dulce Braga publicou o livro infantil “Ndapandula Mama África – Obrigada, Mãe África”, um tributo à herança cultural africana e um instrumento de combate ao racismo. A obra apresenta a história de três crianças cujas origens diversas refletem a formação multicultural do Brasil e a influência africana na língua e na identidade do país.
Apesar de viver no Brasil desde 1975, Dulce Braga mantém uma ligação profunda com Angola. A autora afirma que ainda não regressou ao país porque espera fazê-lo “no momento certo”, comparando-se a uma borboleta que precisa fortalecer-se antes de romper o casulo. A memória da pátria, da família e da juventude perdida permanece viva na sua escrita, que funciona como um processo de cura e reconciliação com o passado.
Ao longo dos anos, Dulce Braga tem participado em eventos literários e culturais, como o Festival das Migrações, onde apresentou as suas obras e partilhou testemunhos sobre a guerra, o exílio e a identidade. A sua literatura, marcada por sensibilidade, verdade e profundidade emocional, tornou-se uma voz importante na preservação da memória histórica angolana e na valorização da cultura africana no Brasil e no mundo.
Editora : Pontes
Data na Lea : 08-12-2022
Páginas : 258