Kituxe morava no Marçal, bairro onde nasceu. Miguel Francisco “Kituxe”, o nosso interlocutor, começa a sua carreira artística quando contava ainda os seus oito anos, fixando a memória na data de 1948, tempos em que participava já como dançarino num dos grupos carnavalescos. À época o pai não gostava que o mesmo se envolvesse com as turmas carnavalescas, só a mãe sabia desta sua actividade, quase sempre seguida sorrateiramente de forma a não deixar que o pai percebesse, sob pena de sofrer algum castigo.
Pintava e usava os panos às escondidas e tinha de estar em casa tão logo o relógio marcasse a hora 7 da noite. Os grupos saíam dos quartéis às 15 horas e iam dançar onde hoje está o Prédio Sujo, atendendo que a Avenida dos Combatentes vinha dar até ao prédio,
junto aos estabelecimentos Sô Manaças, à loja e lagoa do Moreira e dos lados da residência da sonante Josefa Marçal (sua madrinha), que hoje já não existem. Tinha um gosto especial pela música nacional e pelo carnaval.
Participa das turmas, surgidas nos anos 57, fundando, respectivamente, o grupo “Os Vagabundos do Ritmo”, que era composto por Kituxe, Zé Moreira, Antoninho Partoscorno e Artur da Cunha. O grupo tocava no Bairro Operário, no salão de festas cujo proprietário era o senhor Pedro Bonzela Franco. Utilizava uma grafonola, ajudada por um canudo para coar o som.
O grupo acaba ainda em 57. Em 58 formam, com Pedro Gonçalves da Cunha, o Feitiço Negro. Também participaram neste grupo os nomes de Bibiano, Antoninho e Adão Labarba. Era um grupo criado com o propósito de enfrentar no carnaval o grupo carnavalesco Tuna 60.
Nesta altura, o Antoninho também fazia parte do Ngongo (de Malé Malamba).
Um pouco depois, foram surpreendidos com o 4 de Fevereiro de 1961, que obrigou a uma cessação dos ensaios. E pontua que foi mais ou menos nessa época em que entende melhor o cariz da Xicola ya Semba, também de Malé Malamba.
Aliás, da sua ligação a Malé, conta que chega mesmo ao Fogo Negro (outro grupo criado por Malamba) a convite de Joaquim Plácido Faria “Joy”, o encarregado a tocar tambores naquele grupo.
Mas um pouco antes do Feitiço Negro terminar, relembra que ainda em 58 participam no festival Line África (que decorria na Liga Nacional Africana), no qual se consagraram vencedores.
Participaram nesta edição o Feitiço Negro (à época ligado ao Botafogo), os Kimbandas do Ritmo e os Kissanjes.
Lembra os nomes de Pedro Gonçalves da Cunha (viola), Kituxe (tocava tambor), Antoninho Partoscorno (bailarino), Adão Labarba (voz), Bibiano (puita).
Em 61 o grupo termina, motivo que leva Joy a convidá-lo a integrar o Fogo Negro, como tocador de puíta. O Fogo Negro tinha acabado de chegar a Angola, vindo de uma visita a Portugal.
Em 62/63 participa efusivamente nas almoçaradas e jantares ao pôr-dosol que tinham lugar no Palácio onde o Ngola Ritmos também se fazia presente.
À data, o Fogo Negro era constituído pelo Lino da Popa, Zé Rodrigues, Meli, Kituxe, Cirineu Bastos, Quino Morais e Morgado. Também fizeram grandes digressões por algumas províncias, que destas recorda estar presente no dia do incidente de Olga Baltazar no Uíge, que caiu durante uma grande passada num atrelado adaptado como palco.
Ela saiu ilesa. Recorda-a como uma grande bailarina de garbo e muito alegre.
Em 73 morre o Quim Jorge, do Ngongo (onde Antoninho e Manuelito actuavam), e Kituxe passa para o grupo a convite de Roldão Ferreira. Assume a puíta.
Em 75 é convidado pelo Kisangela para formar um grupo de bailado que pudesse estar presente nas festividades da independência de Moçambique.
Prepara as moças e cria uma peça de dança e teatro cujo título era “A escravatura na plantação do algodão”.
O acto de independência teve lugar no estádio da Machava. Nesse dia chovia. Agostinho Neto e toda delegação estavam sob a chuva miúda que caia, enquanto a bandeira do império português descia e a da afirmada nação moçambicana subia.
Foi a sua primeira viagem ao exterior.
Em 1978, Kituxi e Kamoso são convidados a integrar a delegação angolana de partida a Cuba com vista a participar no 11º Festival da Juventude Estudante.
Na correria da preparação, Kamoso perde-se e, assim, só Kituxe vai.
Levou consigo o hungo e o kissange, na companhia do poeta António Jacinto, que era o secretário da Cultura.
No regresso afirma-se mais ainda como tocador solista. Depois é convidado para o Festival Internacional de Expressão Ibérica que aconteceu no Porto.
Leva consigo o seu hungo. Na viagem, a bagagem fica extraviada e perde o pau do hungu já em terras de Camões.
Por momentos fica sem saber o que fazer, até que expõe o sucedido à organização e pede que lhe indiquem uma mata onde podar um pau.
Lá foi, e encontrou um pau divino com que recompôs o hungu. A actividade decorreu sem sobressaltos.
Fonte:Sapo