Edy British: Café Negro foi tudo menos um acidente, porque se fosse acidente teria batido na rocha!

1522 2018-01-22 00:55:03 Entrevistas
Depois de quase um ano atrás do Ediy, finalmente Mr. Edy British aranja tempo e fala para Lea. Não deve ser nada fácil ser musico, Produtor de vídeos, chefe de família e membro da terceira banda de rock a lançar um disco. Mais vale apena esperar por lendas “on their own” na música rock nacional. Edy mencionou Michel, Metal Tomb e Ngubi Montel (que a sua alma descanse em paz), “we miss you dude”. Falamos também de guitarras, amplificadores e palcos, que na verdade endoidece qualquer musico. “Young ones”, prestem atenção e veteranos vamos relembrar e traçar novas direções em prol do rock nacional que de momento até esta de parabéns.

LEA - Para os que não conhecem o Edy British, quem tu dirias que és?

EB - Eu sou o Edilson Filho, artisticamente conhecido como Edy British, músico, guitarrista e compositor, Membro do Movimento Rock em Angola, integrante da Banda Café Negro e outras mais no passado como Neblina, Múmias, aka Azukan e Fênix Project.

LEA - Quando começou a euforia de tocar guitarra?

EB - Há 20 anos atrás, entre 1996 e 1997, foi uma época inspiradora a nível do Rock Mundial, grandes nomes fizeram furor nesta década, em vários subgêneros do nosso estilo. Posso falar de bandas como Nirvana, Metalica, Bon Jovi, Aerosmith, U2, Offspring, Green Day, Red Hot Chilli e Peppers Pearl Jam, Alice in Chains, Megadeath, entre outros.

LEA - Ainda lembras a tua primeira guitarra e o primeiro acorde?

EB - Como não iria lembrar da minha primeira guitarra, com muita saudade e magoa, foi uma oferta do meu pai, (kota Manolo), que infelizmente emprestei a um amigo de um amigo e acabei por perdê-la ingenuamente. Quanto ao primeiro acorde foi muito antes de eu ter a minha guitarra, se bem me lembro foi o mi menor pela facilidade de execução do mesmo. Neste tempo, quando começamos a tocar, eram em guitarras alheias, de amigos e alguns kotas da velha guarda que guardavam sempre um instrumento em casa. Me lembro que andávamos a cidade de Luanda inteira tocando de guitarra em guitarra, tentando aperfeiçoar o máximo possível com o tempo que nos era disponível, foi uma fase bonita e muito encorajadora.

LEA - Já alguma vez frequentou alguma escola de música com o objectivo de aprender ou aperfeiçoar as suas habilidades como guitarrista?

EB - Infelizmente não, principalmente porque na altura não havia escolas de música em Luanda, então o método era procurar guitarristas que já tocavam há algum tempo e comer da sua experiência, o que não foi fácil porque nem sempre havia pré-disposição dos mesmos para tal, e os que tinham, muitas vezes não sabiam transmitir o conhecimento ou seja sabiam para eles, mas não conseguiam ensinar. Por isso me considero um guitarrista de rua, que com o tempo, e com a tecnologia, a internet, fui me tornando um autodidata, até aos dias de hoje.

LEA - Tem alguma técnica que mais gosta?

EB - Não tenho preferência em termos de técnica porque acho que cada uma delas tem o momento ideal para o seu uso, mas gosto "palhetada abafada" para ritmos mais punks e até pop, gosto do “dedilho alternado up em down” para baladas, e de “slides”, “bendings e hammer on” para solos.

LEA - Como lhe dá com o problema de falta de equipamentos e consumíveis tais como cordas?

EB - É mesmo muito complicado principalmente quando és um guitarrista que trabalha full-time, o desgaste do material é bem maior, especificamente das cordas. No meu caso eu compro sempre cordas para o ano e depois vou gerindo, passando sempre nas lojas de música quando posso, e aproveitando sempre tanto amigos ou familiares que vão de férias e peço sempre um jogo de cordas ou palhetas, ou cabos, como der.

LEA - Tem preferências com guitarras, se sim qual é a tua favorita?

EB - Eu sou um amante incontestável da Gibson Les Paul, desde a studio, standard, tradicional, até as gamas limitadas e mais caras, mas sei reconhecer o poder de uma boa Fender Stratocaster para sons limpos, ou de uma boa PRS para dedilhados e solos. Por isso se me perguntares qual eu prefiro? Eu prefiro as três. =P hehehehe

LEA - O que dizer de efeitos?

EB - O nome em si já diz tudo, “efeitos “ servem para dar ênfase (efeito) numa ou outra parte da música, claro que existem efeitos mais standards, como o “Chorus” para sons limpos, e as “distorções” para estilos mais sujos ou brutos, mas em si, não são nada mais do que o próprio nome diz (efeitos!). Eles são muito utilizados devido a tendência que o estilo tem de mostrar uma diversidade de sentimentos e emoções, mas deve-se ter muito cuidado ao utiliza-lo para que não se perca a sonoridade natural e não se caia na monotonia.

"Michel é um dos guitarristas que mais impulsionou o Rock em Angola, fez parte de uma das primeiras bandas de rock em Angola, Metal Tomb, cujo integrantes hoje são grandes nomes da nossa praça."



LEA - Amplificadores?

EB - Não sou um especialista sobre o assunto, são muito importante para os guitarristas, pois funciona como retorno principal desde as garagens aos live acts, têm a vantagem de possuírem uma distorção melhor devido a robustez da caixa, no entanto eles devem trabalhar como irmãos de sangue com as guitarras, ou sejam têm de ser compatíveis porque senão é uma salada russa do caraças. Marcas de referência Marshall, Rolland, Fender, Vox, Peavy, Mesa Boogie e Line6.

LEA - Qual é a coisa mais difícil para um guitarrista em Angola, no teu caso?

EB - A meu ver, não só para um guitarrista, mas para um musico, é a falta de uma indústria (musical) que nos ajude a rentabilizar e a valorizar o nosso trabalho, por mérito e merecimento. A falta de casas para concertos equipadas para o efeito, estúdios equipados com bons profissionais e preços acessíveis, editoras que conseguissem reproduzir cd’s com qualidade, produtoras que trabalhassem com música em todos os sentidos e para todas as idades, programas governamentais por parte dos ministérios adjacentes direcionados para o desenvolvimento da música no país, tudo isso cria um buraco muito grande no seio dos músicos e dos artistas no geral.

LEA - E no palco, o que mais lhe irrita?

EB - Desorganização! Desde o cabeamento, até aos cabinets, microfones e por fim, o mau som ou o som com péssima qualidade, má distribuição de retornos, feedbacks, etc. Isso é um problema muito comum no nosso ramo, desde os pequenos aos grandes concertos, o som é sempre um problema, principalmente o de palco, muitas das vezes o som no PA está óptimo mas no palco está horrível, com muitos feedback e por vezes até descargas eléctricas, isso interfere muito na actuação do artista ou da banda. Só com tempo e experiência é que consegue-se dar a volta por cima. Normalmente as bandas inexperientes é que sofrem mais com isso. Porque quando a actuação não está boa, a culpa nunca é do técnico, mas sim do artista ou da banda.

LEA - A febre do rock começou praticamente nos finais de 80 e teve o seu auge nos anos 90, onde se enquadra o Edy, velha escola ou nova?

EB - Eu sou da velha escola, desde o tempo do The Cure, Duran Duran, U2, The Smiths até ao seu auge como Aerosmith, Guns N’ Roses, Scorpions, Metallica, Nirvana, Pearl Jam entre outros, mas me enquadro em todas escolas, porque acho que a música é uma arte evolutiva, sempre adaptável ao momento e ao contexto na linha do tempo. O bom músico é como o bom doctor , nunca para de estudar e de aprender, para melhor crescer e sempre se adaptar.

LEA - Dizem que Michel Fio é a lenda dos guitarristas angolanos no género rock, tem a mesma opinião?

EB - Claro que sim, o Michel é um dos guitarristas que mais impulsionou o Rock em Angola, fez parte de uma das primeiras bandas de rock em Angola, Metal Tomb, cujo integrantes hoje são grandes nomes da nossa praça como o Kizua Gourgel, Helio Cruz, o falecido Ngouabi e Wando Moreira. Também integrou a mítica banda Neblina na qual lançou o primeiro album de Rock em Angola, ou seja o seu percurso se confunde muito com a própria evolução do rock nacional, para além de ter o espirito rocker entranhado nele, desde a rebeldia a atitude, a forma de vestir, de estar e principalmente de tocar, com muita alma e profundidade. Foi dos primeiros na nossa praça a dominar as técnicas mais evoluídas assim como os efeitos, era um guitarrista muito completo e muitos de nós nos inspiramos até hoje nele, e é daí donde vem todo o seu mérito.

LEA - Quais são os guitarristas angolanos no género rock que você admira além do Michel?

EB - São muitos, da Old School, o Ice e o Nocas na altura dos Acromaniacos, o Ary dos Cristals, o Claúdio e o Gerson Marta dos Sonhadores, Cuedy e Picas dos Quinta Feira, o Kota Pop Show, DHTOPV , o Claudio Houary e o Mayo Bass que tocam comigo nos Café Negro. Da New School , o Jairo e o Pagia dos Dor Fantasma, o Costinha, Zé Beato, Nucho Gavião, o Trio Power dos Mvula, Teacher Paulo, Red Kimba, Bruno Brás, Markus Reis dos Black Soul e Freddy dos Hi flow, todos esses são músicos de mão cheia e eu admiro muito o seu trabalho.

LEA - Como começou o seu interesse com o género rock?

EB - Eu fui muito influenciado por um grupo do bairro popular conhecido como os “ British’s “que eram muito populares na altura por terem hábitos diferentes gostavam de ouvir música ocidental erudita, desde o jazz, blues ao rock e a bossa nova, jogavam xadrez e falavam muito sobre arte, cultura e política. o meu primo Beto British era integrante desse grupo dai o nome de Edy British em homenagem a eles e ao Nando Rocker também meu primo. O interesse cresceu quando comecei a dar os primeiros passos na guitarra e se estendeu até aos dias de hoje.

LEA - Uma vez que o mesmo não tem expressão em Angola, porque insistes em fazer este estilo musical?

EB - Eu acho que a pergunta foi mal formulada; eu não insisto em fazer Rock, eu faço porque gosto e gostos são como rabos, cada um tem o seu, kkkkkkkk estava a brincar, mas agora falando sério, para mim a música é expressão da alma, dos sentimentos, daquilo que me identifica, não é uma questão de escolha, no meu caso eu acho que o Rock é que me escolheu, porque assim que comecei a ouvir foi amor a primeira vista, e aumentou quando comecei a tocar. Eu já ouvia outros estilos e até hoje oiço um pouco de tudo que é audível, mas levo o Rock com um carinho especial, e é nele que eu acho que eu faço toda a diferença, pois os outros estilos estão bem representados a nível de músicos. Quanta a falta de expressão no País, eu acho que é uma questão de tempo e de informação, pois muita gente ouve o estilo mas não sabe que é, os nossos festivais têm muita aderência, já existe uma categoria nos AMA, Nos AFRIMA uma banda angolana ganhou por dois anos consecutivos o prémio de melhor banda africana (Mvula), ou seja muitas barreiras já foram ultrapassadas e muitas ainda estão por ser, o que acontece é que muita gente ainda vive sob os tabus da sociedade e se faz de despercebido em muitos casos.

Por outro lado, existe uma falha grave no mercado musical a nível mundial e o nosso não foge a regra, o facto da maioria dos músicos seguirem os estilos com grande expressão na actualidade, ou seja o estilo que está na moda, que faz com que o mercado perca a qualidade e se transforme em quantidade, porque todos fazem a mesma coisa, e a música é cada vez mais imediata , mais consumível, tipo fast food (olhou, comprou, comeu), sem benefícios nenhum a sociedade e ao desenvolvimento do nosso contexto musical.

Por isso não é uma questão de insistência, mas sim de consciência do amor ao que se faz.

LEA - Café Negro, foi um acidente, se não como tudo começou?

EB - Café Negro foi tudo menos um acidente, porque se fosse acidente teria batido na rocha! hehehehehe Não liga, isso é pra desanuviar! Café Negro foi um plano bem arquitetado por um grupo de amigos que com ajuda de Deus, abriu os olhos dos angolanos para o Rock, quebrou muitos tabus, atravessou fronteiras e levou o nosso som e o nosso rock para outros ventos e outros mares….

Começou como um projecto denominado Question Mark, na altura com o Ary, Mauro Ferreira, eu e Irina, a seguir conhecemos o Jorge Ferreira (manager) que nos acolheu e nos cedeu o seu espaço para desenvolvermos a nossa musicalidade, a banda passou por várias formações (Michel da Banda Mvula na bateria, o Nuno dos Singra na Voz, e Marcio Santos, no Baixo) até chegar a definitiva que gravou o álbum “A safra “ e se intitulou como Café Negro.

LEA - Soubemos de que a maior parte dos artistas angolanos ate mesmo os famosos fazem mais playback em suas apresentações, o mesmo não acontece com as bandas de rock, que desafios têm enfrentado para terem uma boa apresentação?

EB - Para uma boa apresentação, é importante manter os níveis de preparação altos, muito ensaio, assiduidade e responsabilidade sobre o trabalho a apresentar, ao mesmo tempo garantir as condições técnicas no local da apresentação e saber geri-las, seguir sempre a risca o ryder técnico, para orientar a equipa de produção no local, ser pontual e cauteloso no soundcheck. Tudo isso são etapas importantes para o desafio final que é a própria apresentação, o público ditará se foi positivo ou negativo.

LEA - Qual é a sua relação com os membros da banda?

EB - É uma relação saudável, de amizade e cumplicidade mutua, uma banda é como um casamento, cria-se laços de companheirismo muito fortes, as vidas se envolvem e cada um vive a vida do outro e nos ajudamos porque vivemos um objectivo comum.

LEA - Mudou qualquer coisa profissionalmente depois do lançamento do vosso disco?

EB - Claro que sim, os factos falaram por si, percorremos muitos caminhos, abrimos muitas portas, fomos sempre bem recebidos e elogiados pelo nosso trabalho, ganhamos prémios e levamos a nossa música além fronteiras. Tudo isso deu uma bagagem profissional muito boa a todos os elementos da banda.

LEA - Como concilias o trabalho secular com os compromissos da banda?

EB - É sempre complicado conciliar o trabalho com a banda e principalmente com a família, mas felizmente os meus colegas e familiares apoiam sempre o meu trabalho, e me ajudam na medida do possível.

LEA - Já alguma vez pensou fazer carreira a solo?

EB - Sim, na vida nunca se sabe o que nos espera, e se um dia haver possibilidade ou necessidade de seguir a solo, eu seguirei, embora eu não sou apologista do artista a solo sem o conceito de banda ou seja se tivesse de seguir seria sempre aliado a uma banda em que eu seria o frontman.

LEA - Que dicas passas a outros guitarristas que gostariam de seguir os teus passos?

EB - Que trabalhem com fé, honestidade e determinação nos seus sonhos, princípios e ideais. procurando ser criativos e originais e por mais que cresçam, por melhor que venham a ser, por mais fama que alcancem, nunca deixem de ser humildes, porque só com humildade é que continuamos a aprender, a crescer, e atingimos o verdadeiro sucesso.

LEA - O que acha da lea.co.ao?

EB - Acho que são uns patetas, estupidos que não têm mais nada a fazer do que entrevistar um gajo como eu! Hehehehehehehehehehe. Essa é para acabar em grande. hahahahahaha

Desculpa lá, agora falando sério, acho um site muito interessante, que trabalha e promove muito bem a imagem dos artistas, ajudando aos fãs, internautas e público no geral a conhecerem melhor os seus ídolos e artistas de referência. Gosto do facto de não serem selectivos ou elitistas e falarem sobre artistas de diferentes estilos e acima de tudo de informarem e actualizarem sempre os seus conteúdos. Acho que estão de parabéns e desejo-vos muita força e sucessos porque acima de tudo, respeito porque sei que não é um trabalho fácil de se executar…

Valeu, Grande abraço e Rock on Dude!!!! =D

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