Michel Fio: Firme nas trincheiras do rock nacional

1666 2017-10-27 11:54:25 Entrevistas
A história do rock nacional vem a décadas, e no caminho muitos soldados traíram a bandeira, mais muitos ficaram firmes, como verdadeiros filhos da pátria, e Michel Fio é um dos soldados ainda nas trincheiras do rock nacional.

Publicado pela primeira vez em 30/01/2012

Os efeitos de pedais de distorções, o ritmo rápido, as vozes rocas, o delírio, a liberdade de expressão o sexo e as drogas, nunca tiveram simpatia nenhuma no nosso país.

A hostilidade sempre teve patente na cara de todos ate mesmo na cara de quem tinha a chave. Mais no meio de tudo isto nasceu os "Metal Tomb" e com ele nasceu Michel Figueiredo ou simplesmente Michel, uns dos ingredientes principais do rock nacional.

No sábado passado usando as novas tecnologias disponíveis, tivemos uma entrevista bem ‘tribal’ com o guitarrista dos Neblina no Facebook. A entrevista é quase 50% do que foi no Facebook, só com pequenas alterações aqui e ali, para os "Facebookianos" será fácil de entender e ler, portanto suba neste ‘train’ fora de controlo pois começaremos na paragem anos 90.

Eu fui o único que permaneci fiel ao Rock, os outros voltaram-se para o “Semba” e outros estilos. Axo que eles interiorizaram o que alguns kotas que nos desmotivavam diziam "O rock não tem futuro em Angola"!



LEA - Qual é a diferença entre o Michel dos anos 90s e o Michel actual?
MF - Lol, boa… O Michel actual tem as suas metas muito mais estabelecidas, não só musicalmente como profissionalmente.

O Michel dos anos 90' era apaixonado pelo rock e a guitarra, mas ainda andava a procura de uma identidade e originalidade musical.

Sinto que a minha musicalidade finalmente encontrou o rumo que mais me identifica; e é de realçar de que o Michel dos anos 90 era muito mais mulherengo e o Michel de agora ta muito mais calmo e mais caseiro também… hehehe…

Acho que o Michel dos anos 90, vivia mais a euforia do rock, enquanto que o Michel de agora esta mais focado na Produção.

LEA - Já que tocou no assunto, quantas tiveste de uma só vez?
MF- Ahahahaha, acha que o meu máximo foi 4 sem contar com as fãs é claro.

LEA - Uma vez que o rock esta muito relacionado com o sexo, influenciou isto a tua preferência musical?
MF - A única coisa que me influenciou a ir para este género musical foi só a música, o “Rock” é um género musical muito emotivo, e melódico com uma expressão muito forte mundialmente é claro. Também fui influenciado, porque ouvia muito desde criança, bandas como os Scorpions, U2, Depeche mode, The Cure, Beatles, enfim...

LEA - Quanto tempo de rock, e como tudo começou?
MF - Desde 1992, portanto são 25 anos, desde o meu primeiro acorde num violão. Nessa altura havia uma febre pelo rock muito grande não só em Angola, mas no mundo inteiro com Bandas como "Guns n' Roses", "Nirvana, e etc…

Um primo meu em Lisboa tinha uma guitarra, e sabia alguns acordes, e foi daí que começou o meu interesse pela guitarra. Pois ficava horas e horas a tocar durante os intervalos, e durante as aulas, no muro da escola. Depois mais ninguém queria entrar para as salas de aulas.

Isso fez com que eu, e mais um bando fossemos todos reprovados por faltas: um ano lectivo perdido, graças a guitarra… lol. Mas acho que há males que vem para bem, pois muitos meus contemporâneos da altura hoje transformaram-se em grandes músicos. É melhor não citar nomes, mas acho que certamente valeu a pena.

Eu e o Helio Cruz fomos os fundadores. Foi uma experiencia excelente, sem contar com o gozo de viver e ter um bocado do gosto da vida de ‘Rock Star’.



LEA - Foi nesta altura que o teu pai bateu-te com a guitarra?
MF - Sim, e daí a minha sina de andar sempre com uma guitarra ao lado, hehehehe.

Eu não culpo ele, mesmo porque até nos damos super bem. E ele sempre me apoiou nas minhas escolhas, acho que ele teve uma reacção que muitos pais teriam, pois ele só estava a zelar pelo meu futuro académico na altura.

LEA - Qual foi a tua primeira banda oficial?
MF - A minha primeira banda oficial, chamava-se “Metal Tomb”, e estava constituído por me Mim na guitarra e voz, Hélio Cruz na bateria, Vando Moreira no baixo, e Nguaby (das gingas) na guitarra ritmo.

Na altura fazíamos ‘covers’ de bandas conhecidas de rock, e tocamos em muitos bares, como o Farol velho no fundo da ilha, o terraço do Tino Abrantes (cruzeiro), no bar do Mi Farias, e uns tantos outros para além de tocarmos também em festas de escolas quando éramos convidados. Mais tarde, juntou-se a nós também o Kizua Gourgel e as suas irmãs gémeas a Joana e a Elisa para as corais.

Lembro-me que tinha-mos feito uma versão da música “Mbiri Mbiri” em rock! e tocamos ao vivo algumas vezes, axo q foi um bocado ousado da nossa parte, pois na altura ninguém fazia este tipo de coisas, mas os kotas curtiram e fomos absolvidos.

LEA - Quem fundou e como era tocar para os Metal Tomb?
MF - Eu e o Hélio Cruz fomos os fundadores. Foi uma experiencia excelente, sem contar com o gozo de viver e ter um bocado do gosto da vida de ‘Rock Star’.

E também posso dizer que na altura, só havia duas bandas de Rock visíveis, que éramos nós e os Mutantes. Acho que de uma certa forma influenciamos outros amantes do género a aprenderem um instrumento musical e a formarem bandas.

Os Cristal que foram uma banda que apareceu depois, foram todos meus alunos. Hoje sinto um certo orgulho de ter dado algo de uma certa forma positiva.



LEA -Qual foi o ponto mais alto com os Metal Tomb?
MF - Acho que foi na altura em que tocávamos no terraço do Tino Abrantes, pois tínhamos um público excelente e foi daí que ganhamos muita visibilidade. E surgiram também inúmeros convites para outros sítios, como no Pandemónio, Escola portuguesa e outros.

LEA - O que aconteceu para desmembrarem-se?
MF - Foi uma sucessão de eventos, O Nguaby foi o primeiro a deixar a banda, por causa do projecto dele com as Gingas. Nessa altura já o Kizua tinha saído e as gémeas, ficando só eu, o Vando e o Helio.

Na altura estávamos a tocar no Farol Velho, e depois no Pandemónio. Axo que depois de muito tempo o pessoal começou a ver bem o que queria, ou seja, cada foi atrás do seu estilo musical que mais se identificava. É o que acontece quando se tem trabalhadores no departamento errado.

Eu fui o único que permaneci fiel ao Rock, os outros voltaram-se para o “Semba” e outros estilos. Axo que eles interiorizaram o que alguns kotas que nos desmotivavam diziam "O rock não tem futuro em Angola"!

LEA - Teve outras bandas, podes mencionar algumas delas?
MF - Com certeza, os “Metal Tomb” terminaram em 1995 se não estou enganado, depois eu fui estudar para cidade do cabo, e lá tive duas bandas. “Os Lusids”, e os “Perihelion”. Depois voltando a banda em 2000 formei uma banda chamada 'Acidos' com a Vanuza Leitão (Overkill Punk) na voz, Mauro Ferreira na bateria, Korwo na guitarra ritmo e voz também, e eu na guitarra solo e composição. Chegamos a participar no concurso “Nação coragem”, e no concurso da canção da LAC. Tocamos ao vivo na Filda, Depois O Ary (actual membro dos Café Negro) também se juntou a nós. Em 2001 fui contactado pelo Mauro Henriques (Mauro Neb), e daí então formamos a Banda Neblina. Já tem um álbum no mercado, por sinal o primeiro de rock na história nacional, embora o álbum foi gravado com muitos poucos recursos e apoio, mas valeu a pena.

Tenho o meu projecto a solo de música “Electro – industrial” e “Psicadélica”, que vai andando, embora devagar, mas andando.

LEA - Quer nos falar mais um pouco do "Innocence fall in Decay"?
MF - O álbum é uma compilação de 10 músicas originais, nove em inglês e uma em português (Os filhos da pátria). As músicas do álbum faziam parte do reportório de concerto dos Neblina que apresentaram ao público durante quase quatro anos, antes do lançamento do álbum.

O álbum não teve quase patrocínio nenhum, as sessões de estúdio foram todas pagas por nós, e na altura não tínhamos muitas possibilidades, as vezes tínhamos mesmo de gravar uma música por mês, ou algo assim, sem falar da falta de experiência dos engenheiros de som quanto ao género Rock ou Metal que existe no nosso mercado.

Muitas dificuldades, que contando as ninguém acredita, dava mesmo para escrever um livro!

Ainda me lembro da primeira vez que uma música nossa tocou na rádio, no Volume 10, isso antes da conclusão do álbum, íamos em direcção a rádio. Eu e o Mauro, já quase atrasados para o programa, o tirante do acelerador do carro quebrou! O carro não acelerava! Tivemos de parar o carro, e o Mauro arrancou uma corda da guitarra e amarrou o pedal com a corda... funcionou! E lá fomos nós! Hehehe… mas tudo correu bem.

O álbum foi um pouco experimental, não só em termos de audiência, mas em termos técnicos também. É basicamente estilo Heavy metal com algumas baladas (Memories, Stairway to heavens), e um “kilapanga rock” (Filhos da Pátria).

Eu acho que foi um álbum Importante para a historia da música nacional, não pelo facto da qualidade sonora, mas pelo facto de ser o primeiro de Rock! Levantar a bandeira e dizer " yes we can”!

LEA - Como é tocar na Europa?
MF - Pessoalmente ainda não tive este prazer porque a banda onde estou a tocar ainda estamos a compor em estúdio, ainda não demos nenhum concerto. Mas tenho ido a alguns concertos de bandas locais e É explosivo, pois a audiência para este género épico 'e enorme!

Acredito que em Angola um dia também vamos ter uma audiência enorme para o Rock, pode levar algum tempo ainda, mas chegará o dia em que teremos estádios cheios para assistirem uma banda de rock.

Há muita gente a fazer muito pelo rock, tenho estado a observar a distância e dou sempre a minha força quando posso.

LEA - Que técnicas utilizas para solar?
MF - Olha para te ser sincero, não sei! Há muitos nomes, e eu sempre fui mau de nomes... hehehe… os meus alunos de guitarra aí em Luanda as vezes pediam para ensinar uma determinada técnica, e eu não sabia pelo nome, quando mostravam numa música eu dizia: ah, queres que eu te ensine isso? É assim!.... Mas claro, aprender a ler música, e a escrever é algo que enriquece a composição para qualquer músico, eu sendo autodidata, estive sempre mais virado para os termos técnicos melódicos e escalas, e nunca para os nomes das técnicas. Mas conheço alguns, 'Dive bomb, finger picking, shredding...' hammer on, slide etc.



LEA - Há algo especial na tua maneira de tocar?
MF - Isso quem tem a responder são os meus ouvintes! Rsrsrs… Axo q eu tento manter uma certa coerência com a voz, como se fosse uma conversa, e a guitarra ou responde, ou as xs contesta aquilo q e' dito pela voz, o que cria um certo balanço harmónico.

Mas cada vez mais tento me afastar do obvio ou do ordinário, sempre fui muito atraído pelo diferente, e axo que cada vez mais tenho estado a ir a fundo e descobrir sonoridades novas, e tempos musicais diferentes, talvez seja pelas diversas influencias musicais e gostos, como o Jazz e o trance psicadélico. Acredito que as minhas novas produções vão certamente receber inúmeras criticas por estarem muito longe do que e' convencional.

A música é algo muito repetitivo (afinal só são 7 notas na escala musical), e requer-se cada vez mais, muita habilidade, arte e engenharias para se produzir algo original.

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